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terça-feira, setembro 21, 2010

"Observatório"

Um anúncio radiofónico da meo sobre a velocidade de mudança de canal: o marido ressona no sofá, a mulher fala, fala e conta a história.  A mulher vai  à cozinha ver o refogado, cheira-lhe a esturro, larga o tacho, enquanto o marido continua ressonando no sofá.

Este artigo de um revista electrónica sobre crianças.

segunda-feira, março 08, 2010

Outro que anda por cá

"Minha senhora de mim  

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito" 

Maria Teresa Horta

Da Maria Teresa Horta

Li-o quando adolescente. Nunca mais me foi estranho.

"Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda."

Escrito hoje

O dia de hoje, afinal,  faz sentido para mim... Do pedestal dos 20 anos pareceu-me que iria deixar de o fazer. E agora faz-me mais sentido do que nunca. Até chega a ser triste. É preciso que a chuva pare, mas chove há milénios. É um dilúvio para estancar.

E sim, uma mulher que não seja feminista, pode não ser estúpida, mas só se fôr muito, muito jovem ...

Mais sobre o descontentamento  e o "não irmos lá com flores".

domingo, janeiro 24, 2010

Quando é que pára de chover?

A propósito de muito do que foi escrito sobre as fotografias da Clara Pinto Correia, lembrei-me do segundo tomo do "La force des choses" da Simone de Beauvoir, editado em 1963, que começa assim:

"Les jeunes femme ont un sens aigu de ce qu'il convient de faire et de ne  pas faire quand on a cessé d'être jeune. « Je ne comprends pas, disent-elles, que passé quarante and on se teigne en blond; q'on s'exhibe em bikini; q'on coquette avec les hommes. Moi, quand j'aurai cet âge-là...» Cet âge vient: elles se teignent en blond; elles portent des bikinis; elles sourient aux hommes. C'est ainsi que je décrétais à trente ans: « Un certain amour, après quarante ans, il faut y renoncer.» Je détestais ce que j'appelais « les vieilles peaux » et je me promettais bien, quand la mienne aurait fait son temps, de la remiser. Cela ne m'avait pas empêchée, à trente-neuf ans, de me jeter dans une histoire. Maintenant, j'en avais quarante-quatre, j'étais reléguée au pays des ombres: mais, je l'ai dit, si mon corps s'en accommodait, mon imagination ne s'y résignait pas. Quand une chance s'offrit de renaître encore une fois, je la saisis."

Enquantos formos os nossos próprios algozes, a "chuva não vai parar"! E tantos anos depois...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O dedo na ferida

"O que me desagrada nesta campanha - feita mais para os homens do que para as mulheres - é que ela passa ao lado, mais do que isso, desrespeita, ignora, menospreza, o carácter essencialmente existencial, vivido, do problema do aborto. É por isso que o aborto é mais uma questão das mulheres, como é a maternidade, e não é totalmente extensível e compreensível aos homens. Este é um dos casos que esquecemos muitas vezes, quando achamos que a igualdade é algo de adquirido sob todos os aspectos, e que tem a ver apenas com a sociedade, a economia, a cultura e o direito.

Não, pelo contrário, há desigualdades, "diferenças" no dizer politicamente correcto, estruturais entre os seres humanos, uma das mais fundamentais é a que a maternidade introduz entre homens e mulheres. E para as mulheres, que, quase todas, ou abortaram ou pensaram alguma vez em abortar, ou usam métodos conceptivos que à luz estrita do fundamentalismo são abortivos, o aborto de que estamos a falar neste referendo não é uma questão de opinião, argumento, razão, política, dogmática, mesmo fé e religião. Também é, mas não só. É uma questão de si mesmas consigo mesmas, íntima, própria, muitas vezes dolorosa e nalguns casos dramática. Não é matéria sobre que falem, se gabem, argumentem ou esgrimam como glória ou mesmo como testemunho. Não é delas que vem esta estridência, nem é por elas que vêm os absurdos do telemóvel, do pinto, do ovo, do Saddam Hussein, do coraçãozinho. É mais provável que sintam tudo isso mais como insultos do que como argumentos que lhes suscitem a atenção. No seu silêncio votarão ou abster-se-ão, mas é por elas, por si, pelo seu corpo, pelos seus filhos, pelo seu destino, pela sua vergonha, pela sua dor, pela sua miséria, pelas suas dificuldades económicas, pela sua vida, pelos seus erros, pelas suas virtudes."

Pacheco Pereira, Público 25/01/2007