quinta-feira, outubro 18, 2007

Seeing Jones

You may say, for example, that you see your friend, Mr. Jones, walking along the street; but this is to go far beyond what you have any right to say.(…) Little packets of light, called “light quanta”, shoot out from the sun, and some of these reach a region where there are atoms of a certain kind, composing Jones’s face, and hands, and clothes. These atoms do not themselves exist, but are merely a compendious way of alluding to possible occurrences. Some of the light quanta, when they reach Jones’s atoms, upset their internal economy. This causes him to become sunburnt, and to manufacture vitamin D. Others are reflected, some enter your eye. There they cause a complicate disturbance of the rods and cones, which, in turn, sends a current along the optical nerve. When this current reaches the brain, it produces an event. The event which it produces is that which you call “seeing Jones”. As is evident from this account, the connection of “seeing Jones” with Jones is a remote, roundabout causal connection. Jones himself, meanwhile, remains wrapped in mystery. He may be thinking about his dinner, or about how his investments have gone to pieces, or about that umbrella that he lost; these thoughts are Jones, but these are not what you see.

Bertrand Russell (on the limitations of the scientific method: Inferences to what is not experienced)
in The scientific outlook (1931)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O dedo na ferida

"O que me desagrada nesta campanha - feita mais para os homens do que para as mulheres - é que ela passa ao lado, mais do que isso, desrespeita, ignora, menospreza, o carácter essencialmente existencial, vivido, do problema do aborto. É por isso que o aborto é mais uma questão das mulheres, como é a maternidade, e não é totalmente extensível e compreensível aos homens. Este é um dos casos que esquecemos muitas vezes, quando achamos que a igualdade é algo de adquirido sob todos os aspectos, e que tem a ver apenas com a sociedade, a economia, a cultura e o direito.

Não, pelo contrário, há desigualdades, "diferenças" no dizer politicamente correcto, estruturais entre os seres humanos, uma das mais fundamentais é a que a maternidade introduz entre homens e mulheres. E para as mulheres, que, quase todas, ou abortaram ou pensaram alguma vez em abortar, ou usam métodos conceptivos que à luz estrita do fundamentalismo são abortivos, o aborto de que estamos a falar neste referendo não é uma questão de opinião, argumento, razão, política, dogmática, mesmo fé e religião. Também é, mas não só. É uma questão de si mesmas consigo mesmas, íntima, própria, muitas vezes dolorosa e nalguns casos dramática. Não é matéria sobre que falem, se gabem, argumentem ou esgrimam como glória ou mesmo como testemunho. Não é delas que vem esta estridência, nem é por elas que vêm os absurdos do telemóvel, do pinto, do ovo, do Saddam Hussein, do coraçãozinho. É mais provável que sintam tudo isso mais como insultos do que como argumentos que lhes suscitem a atenção. No seu silêncio votarão ou abster-se-ão, mas é por elas, por si, pelo seu corpo, pelos seus filhos, pelo seu destino, pela sua vergonha, pela sua dor, pela sua miséria, pelas suas dificuldades económicas, pela sua vida, pelos seus erros, pelas suas virtudes."

Pacheco Pereira, Público 25/01/2007